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Qualquer maneira de amor vale a pena


Hoje vamos de história de amor, daquela que enche o peito de ternura, os olhos de lágrimas (mas de contentamento) e que tem final feliz. E que final.


Li no El País, porque sempre estou atrás da Rosa Montero – ainda não entendi a periodicidade da sua coluna – tem artigo dela que sai aqui, mas é esporádico, estou percebendo que a maioria dos textos só é publicado na gringa mesmo... Enfim, estou eu à caça da minha musa inspiradora jornalística e o título da matéria me fez, imediatamente, parar a busca: “Eu doei os óvulos, ela engravidou, nós duas amamentamos”.


De início, um pouco confusa, li novamente, corri para o sutiã (hoje tem outro nome para essa linhazinha que “sustenta” o título da matéria, mas agora esqueci – pra mim sempre vai ser sutiã porque faz todo o sentido, né? Haha). Tratava-se, obviamente, de duas mulheres, que fizeram inseminação, e uma engravidou, usando os óvulos da outra.


Acho isso lindo, e já tinha visto algo a respeito. O que me chamou mais a atenção foi a questão da amamentação. Júlia Gutnik, 33, jornalista, e Mariana Quintanilha, 35, publicitária, estão juntas há oito anos, vivem uma relação estável, saudável e feliz, e decidiram ter um filho. Depois de pensarem nas possibilidades, recorreram a um banco de sêmen, e pra criança ter um pouquinho das duas, usaram os óvulos de Mariana no útero de Júlia.


Depois de três tentativas, um ano, e algumas dezenas de milhares de reais gastos, Júlia engravidou, de gêmeos. Só que Mariana também tinha o desejo de amamentar os bebês. Ela então começou uma busca desesperada para induzir a lactação. Hormônios, alimentos, bebidas que estimulam a produção de leite na mulher, como a tintura da flor do algodão, e o uso constante de uma bombinha foram os artifícios usados por ela antes de os bebês nascerem.


Stella e Gabriel nasceram prematuros e tiveram que ficar 22 dias internados na UTI neonatal. Durante esse tempo, as mamães tiveram que retirar o leite e deixar no banco de leite da maternidade. Foi aí que o milagre aconteceu e Mariana conseguiu, de gotinha em gotinha, começar a produzir leite. Juntas, as duas choraram.


Apesar da vitória, nem tudo foram flores, porque a presença de Mariana chegou a ser barrada no banco de leite da UTI neonatal, simplesmente porque o hospital não sabia como proceder com o fato de as crianças terem duas mães, e que ambas iriam amamentar. A médica delas precisou acionar o chefe da UTI, que rapidamente contornou a burocracia.


Assim que os bebês nasceram, elas também passaram outro perrengue. O hospital só colocou o nome de Júlia no cartão de identidade das crianças. Somente depois que as etiquetas já estavam impressas, é que o nome de Mariana foi colocado, à mão, como “segunda” mãe.


O bacana é que elas contaram tudo isso à reportagem de o El País, rindo, gostando do pioneirismo, e levaram tudo de maneira leve. A questão do INSS também não foi resolvida. Júlia conseguiu sair de licença-maternidade, mas Mariana ainda não. Está esperando tramitar seu pedido e os bebês já completaram dois meses de vida. Apesar disso, a agência de publicidade onde ela trabalha já concedeu a licença, independentemente da decisão do governo. Sorte a dela trabalhar num lugar justo, mas o sistema precisa entender que elas existem.


Júlia e Mariana estão tão felizes que, mesmo com os bebês recém-nascidos, já pensam em aumentar a família. Agora é Mariana quem quer engravidar usando os óvulos da companheira. As duas estão guardando as roupinhas de Stella e Gabriel para a próxima aventura.


É como diz a canção do Milton Nascimento, que aqui me dou o direto de adaptar:


“Elas se amam de qualquer maneira Elas se amam é pra vida inteira Qualquer maneira de amor vale o canto Qualquer maneira me vale cantar

Qualquer maneira de amor vale a pena Qualquer maneira de amor vale amar”.


Fim.


P.S. As meninas não contaram ao jornal como fizeram com a certidão de nascimento dos bebês, mas fui pesquisar e constatei, estarrecida, que não existe lei no Brasil que trate sobre o registro em cartório da dupla maternidade. Apesar disso, é um direito do casal homoafetivo sim.


O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) emitiu um normativo, em 2017, que estabelece que as certidões de nascimento emitidas no país não devem ter os campos “pai” e mãe, mas sim “filiação”, assim como “avós” ao invés de “avós maternos” e “avós paternos”.

PROVIMENTO N. 63, DE 14 DE NOVEMBRO DE 2017


E tem mais. Resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) regulamenta o registro de crianças com dois pais ou duas mães por reprodução assistida ou barriga por substituição (a conhecida barriga de aluguel).


Resumindo: os cartórios são obrigados a registrar. Só tem um porém. No caso dos casais homoafetivos, é obrigatório apresentar certidão de casamento ou contrato de união estável, o que não é exigido para registrar nenhum nascido de casal hétero. Precisa comentar?



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