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Precisamos falar sobre saúde mental materna


"Ser mãe é padecer no paraíso" diz o ditado popular. Essa famosa frase carrega em si a ideia de maternidade enquanto um sacrifício, um padecimento sagrado a qual todas as mulheres devem se submeter para alcançarem a plenitude. E, em razão dessa crença, praticamente tudo que uma mulher passa em razão da maternidade é "justificável". É basicamente reforçado pela sociedade: "é assim mesmo! É difícil mas vale à pena." Para as mulheres "não mães"ninguém conta as reais dificuldades e sofrimentos e a romantização dessa condição, aprisiona, enlouqueça e deixam milhões de mulheres doentes, sozinhas e se sentindo culpadas ao longo de suas vidas.


Falando sobre a minha história agora. Tive uma gravidez tranquila mas com os costumeiros enjôos. Nenhum desejo. Engordei de forma saudável e trabalhei intensamente até dias antes de minha filha nascer. Nesse meio tempo, ainda terminei meu mestrado. Não tive nenhuma complicação na gravidez e nenhuma doença. Minha filha foi considerada um bebê grande e por isso regularmente fiz testes de glicose Mas passei por muitas restrições: na alimentação, bebidas, nos excessos. Você precisa se alimentar corretamente, se exercitar, dormir o tempo correto, ter calma. Você vê lentamente seu corpo mudar por completo, assim como sua agilidade e independência. Trata-se aí do ponto mais difícil, para mim, da gravidez: a fragilidade. A sensação de impotência e longa espera, além dos hormônios que te fazem ter oscilações tremendas de sentimentos. Gravidez não é fácil. Trata-se de um ser humano crescendo dentro de você. Algo objetivamente estranho de se pensar, mas emocionalmente intenso de se viver.


E aí, o milagre acontece. Seu bebê nasce e você percebe que a parte mais difícil ainda nem tinha começado. Fiz uma cesárea pois tinha pavor de pensar em parto “normal”. Não consegui amamentar por causa de uma cirurgia estética que fiz nos seios aos 16 anos. Tentei bastante. Fiz translactação - nem vou me alongar explicando o que é isso - fui em banco de leite aprender a me “ordenhar”, enfim, tentei de tudo mas não deu. Tive que tomar remédio para cortar o leite. Que sofrimento eu passei! Mas minha filha foi generosa e imediatamente aceitou a mamadeira.


Tive depressão pós-parto. Ninguém soube. E eu mesma só entendi que tive, algum tempo depois, pois eu achava que fazia parte do quadro da maternidade eu passar por tudo aquilo. Passei noites sem dormir, como toda "boa mãe"deve fazer. Chorei muito e várias vezes. E é sobre a saúde mental materna que quero focar nesse texto. Sobre as mães suportarem TUDO porque ser mãe é assim, porque se você reclamar, vão te julgar, vão te achar uma mãe ruim. No vídeo abaixo, Helen explica com clareza sobre maternidade real. Sugiro que assistam antes de continuarem a ler o texto:

Hel Mother: Maternidade Real

Recentemente foi instituído o Dia da Saúde Mental Materna (comemorado na primeira quarta-feira de Maio), que visa conscientizar sobre a importância de tratar sobre transtornos mentais ao falar da maternidade.


“É necessário estabelecer o Dia Mundial da Saúde Mental Materna por muitos motivos, bem mais do que acreditamos, já que a saúde mental materna afeta diretamente a mulher, mas também o bebê, o casal e a família”, comenta Isabel Echevarría, psicóloga perinatal e membro do grupo de trabalho de Psicologia da Ordem Oficial de Psicólogos de Madri.

A qualidade de contato dessas mulheres com o seu entorno e, principalmente, com os filhos reflete no nível de desenvolvimento pleno e fértil desse período. Portanto, alcançar o bem-estar é uma maneira de garantir um elo mais forte e saudável nesse novo relacionamento.

“Na realidade, a saúde mental das mães é um pilar necessário para o desenvolvimento e o crescimento saudável dos filhos. Apesar disso, na sociedade existe uma idealização da maternidade junto com um estigma da doença mental materna, associado com ser uma mãe ruim, o que chega a impedir as mulheres que se sentem angustiadas, incapazes, tristes, culpadas ou com medo de comentar isso com sua família ou profissionais de referência”, reflete Echevarría.

No Brasil, uma pesquisa realizada pela Fiocruz, detectou depressão materna em 26% das mães entre 6 e 18 meses após o parto. Ou seja, 1 a cada 4 mulheres no Brasil, em média, sofrerá com depressão após o nascimento de seu bebê. São índices preocupantes e que geram grande impacto na vida de mães, bebês, pais e famílias inteiras. Estas alterações frequentemente passam despercebidas, sem diagnóstico ou tratamento, e muitas vezes com consequências trágicas e a longo prazo tanto para mães, quanto para bebês - geram dificuldades no estabelecimento do vínculo mãe-bebê, no aleitamento materno, trazem consequências para o desenvolvimento da criança, em vários aspectos, interferem negativamente na adaptação da mulher ao novo contexto de vida, bem como na relação consigo mesma, com a parceria, a família, o entorno social e o retorno ao trabalho, e em situações mais graves, dificuldades que podem envolver situações de risco à vida da mãe e da criança.

Adoecimentos mais comuns no pós-parto:

– A melancolia ou tristeza materna, o Baby Blues, atinge, em grau maior ou menor, 85% das mulheres nas primeiras semanas após o parto. Os sintomas tendem a se dissolver com o passar dos dias, não sendo necessário nenhuma intervenção terapêutica ou psiquiátrica.

– A depressão pós-parto (DPP) é caracterizada pela tristeza prolongada, embotamento, perda de motivação, labilidade emocional, retraimento e isolamento, sensação de incapacidade e de culpa constante. Em alguns casos pode ocorrer episódios maníacos, preocupação excessiva com limpeza, entre outros. É fundamental a avaliação dos fatores de risco e de proteção, que poderão auxiliar na conduta e tratamento adequado.

– Normalmente diagnosticada por episódios maníacos, depressivos ou psicóticos, a psicose puerperal apresenta como sintomas característicos um quadro delirante, alucinatório, grave e agudo, que aparece do segundo dia a 3 meses depois do parto.

– Desenvolvido como resposta à exposição frente a um evento traumático, o transtorno de pânico pós-parto (TEPT) pode ocorrer antes mesmo da gestação, durante ou no decorrer do parto. Em situações como: perdas perinatais, morbidades maternas graves, experiências de partos complicados, violência obstétrica, procedimentos invasivos e intervenções no parto, entre outros. Manifesta-se através de sintomas de ansiedade elevada e comportamentos obsessivos-compulsivos, incluindo aqueles dedicados ao bebê, como conferir repetidas vezes se o mesmo está respirando, se está no berço. Enfim, um excesso de proteção generalizado.

Os transtornos mentais relacionados à maternidade são também muitas vezes diretamente escondidos pelas próprias mães, submetidas à crença de que a maternidade só pode trazer consigo sentimentos relacionados com a felicidade.

Mas não é só na fase em que as mães tem filhos bebês que há riscos de adoecimento mental. Um fator que contribui demais para um quadro de adoecimento mental é a potencial sensação de anulamento como indivíduo causada pela criação dos filhos.

“A maioria das mulheres é submetida ao esgotamento porque se espera que elas estejam preparadas para serem mães, profissionais e donas de casa. Muitas não dão conta e não têm coragem de externar a dificuldade, pois se sentem constantemente julgadas. Isso vai se acumulando dentro delas e, em um momento, vem a sensação de que a vida está anulada, pois nada que fazem é para elas, não há um momento de ócio. Tudo é para os outros ou para os filhos. Não há mais sentido e prazer naquilo”.

Psicóloga Juliana Benevides


Do universo corporativo para a maternidade:

síndrome de burnout materno

Originalmente, síndrome de burnout referia-se a um estado de esgotamento profissional – a condição foi oficializada nos anos 1970 pelo psicanalista alemão Herbert Freudenberger, radicado nos Estados Unidos. A abordagem voltada à maternidade começou a ser estudada nos últimos dez anos pela psicóloga belga Moïra Mikolajczak. Seu título de PhD veio de uma pesquisa na qual verificou um alto nível de estresse, semelhante ao vivido no universo corporativo, entre mulheres e homens quando questionados sobre suas tarefas como mães e pais.


O burnout materno possui alguns sintomas: sentimento constante de culpa, pessimismo, exaustão, sentimento de fracasso e de impotência, irritabilidade, falta de interesse, motivação e propósito, falta de prazer no cuidado com os filhos.


Claro que esses sintomas podem fazer parte de nossas vidas em determinados momentos, por isso é preciso atenção a intensidade e frequência desses sentimentos e ficar atenta quanto ao momento de buscar ajuda profissional.


Tem um provérbio Africano que diz: “É preciso de uma tribo inteira para cuidar de uma criança”... e eu, realmente, concordo. As mães estão adoecendo por muitos fatores, mas sem dúvida, um deles é por fazerem o papel de uma tribo inteira sozinhas.

Bônus:

Coloco aqui a sugestão de um livro sobre o tema que achei muito emocionante e recomendo fortemente:

Sinopse:

Nnu Ego, filha de um grande líder africano, é enviada como esposa para um homem na capital da Nigéria. Determinada a realizar o sonho de ser mãe e, assim, tornar-se uma “mulher completa”, submete-se a condições de vida precárias e enfrenta praticamente sozinha a tarefa de educar e sustentar os filhos. Entre a lavoura e a cidade, entre as tradições dos igbos e a influência dos colonizadores, ela luta pela integridade da família e pela manutenção dos valores de seu povo.


Sobre a autora:

A nigeriana Buchi Emecheta é autora de mais de 20 obras, entre elas Cidadã de segunda classe (1974) e As alegrias da maternidade (1979), ambos publicados pela Dublinense. Seu trabalho aborda temas como escravidão, independência feminina, maternidade e liberdade e é reconhecida pela crítica mundial, especialmente na Inglaterra, onde residiu por mais de 50 anos até sua morte, em janeiro de 2017.


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