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Canção das mulheres

Estava navegando pela internet quando eu me deparei com esse texto maravilhoso da Lya Luft chamado Canção das mulheres. Nesse texto existe uma representação da mulher que “desabafa”, exprimindo um desejo comum a quase todas nós: a de sermos compreendidas por àqueles que convivem conosco.


Canção das mulheres

Que o outro saiba quando estou com medo, e me tome nos braços sem fazer perguntas demais.

Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amarei menos porque estou quieta.

Que o outro aceite que me preocupo com ele e não se irrite com minha solicitude, e se ela for excessiva saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor.

Que o outro perceba minha fragilidade e não ria de mim, nem se aproveite disso.

Que se eu faço uma bobagem, o outro goste um pouco mais de mim, porque também preciso poder fazer tolices tantas vezes.

Que se estou apenas cansada, o outro não pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais.

Que o outro sinta quanto me dói a ideia da perda, e ouse ficar comigo um pouco - em lugar de voltar logo à sua vida.

Que se estou numa fase ruim, o outro seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde nem dizendo ''Olha que estou tendo muita paciência com você!''

Que quando sem querer eu digo uma coisa bem inadequada diante de mais pessoas, o outro não me exponha nem me ridicularize.

Que se eventualmente perco a paciência, perco a graça e perco a compostura, o outro ainda assim me ache linda e me admire.

Que o outro não me considere sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceite quando não estou podendo ser nada disso.

Que, finalmente, o outro entenda que mesmo se às vezes me esforço, não sou, nem devo ser, a mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa: vulnerável e forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa - uma mulher.


Lya Luft

LUFT, L. Pensar e Transgredir, Canção das Mulheres, Editora Record, 1ª Edição, 2004.


Quer saber mais sobre essa mulher incrível? Clique aqui para acessar sua biografia.

Auto-retrato

Alguém diz que sou bondosa:

está tão enganado que dá pena.

Alguém diz que sou severa,

e acho graça.

Não sou áspera nem amena:

estou na vida como o jardineiro

se entrega em cada rosa."

- Lya Luft,"Para não dizer adeus", 2005.

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2 commentaires


Gabriela Campos
Gabriela Campos
02 avr. 2021

Nossa, texto perfeito. Me identifiquei 100% com ele inteiro!!! kkkkkkkkkk. Obrigada, mana!

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amvieiracampos
amvieiracampos
01 avr. 2021

Escritora maravilhosa! Ótima escolha ! O texto é leve , mas desperta sentimentos, sensações, desejos de sermos respeitadas como nós realmente somos e nos sentimos .Parabéns, Carolina ! Espero o próximo post logo !

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